Cena de supermercado. Entro na fila para pagar minhas compras e escolho o caixa rápido. Há duas pessoas na minha frente. Minha expectativa é de que logo serei atendido e isso me traz certo conforto. No entanto, um dos clientes paga com uma nota de cinquenta reais, e a moça do caixa não tem troco. A fila, que terminava em mim, começa a crescer. Ninguém mais anda a espera que o supervisor do mercado consiga trocar o dinheiro. Não se passou um minuto, se muito, e uma mulher logo atrás de mim inicia um processo de irritabilidade. Fica nervosa porque a fila não anda. Nota-se que ela não queria mais estar ali. Sua expectativa de entrar no caixa rápido foi por água abaixo. Seu nível de ansiedade aumenta, e ela começa a falar sozinha, em voz alta, colocando a culpa de todo o processo na moça do caixa. Se a cena continuasse por mais tempo, outros da fila poderiam se contaminar, e iniciariam uma revolta contra a lentidão.

Poema visual: Fernando Aguiar
Poema visual: Fernando Aguiar

Algumas vezes, no contexto terapêutico, atendo pessoas que estão constantemente em busca de informações sobre os problemas pelos quais estão passando. O acesso ao conhecimento proporcionado pelas tecnologias trouxe um ganho significativo nesse sentido, trazendo ao paciente uma série de ideias e possibilidades sobre aquilo que as leva ao sofrimento. No entanto, o conhecimento intelectual e os livros de autoajuda não são suficientes para estabelecer a sinergia necessária para uma vida mental saudável.

O equilíbrio da vida está em estreita relação com o desenvolvimento de três ecologias: a individual, a coletiva e a ambiental. Entende-se por individual, a consciência que a pessoa tem de si, com todas as suas complexidades, seu relacionamento consigo mesma, a compreensão de sua transcendência e sacralidade, o estabelecimento da paz interior a partir do domínio das próprias emoções. A ecologia coletiva pressupõe viver em paz com os outros, estar aberto à diversidade e perceber a profunda unidade que envolve os seres humanos e que cria sua identidade de pertencimento ao Todo. A ecologia ambiental se relaciona com a consciência de que somos cidadãos de um mesmo planeta, influenciando e sendo influenciados pela natureza, criando um paradigma em que a sustentabilidade é também uma força essencial para a formação da paz que todos buscam alcançar. Partindo desse princípio trino, o psicólogo Pierre Weil (1924-2008) propunha uma arte de viver, na qual o sujeito reencontraria o sentido da existência.

 

A vida é frágil. Temos uma tendência de assim ver o mundo quando somos atingidos em nossa própria fragilidade, em nossa visão limitada das coisas. Como construímos nossos referenciais com base nos cinco sentidos, acabamos por encontrar na vida apenas uma imagem fugaz, passageira, que a qualquer momento pode deixar de ser e simplesmente sumir. Daí a dificuldade que sentimos diante da morte e do luto que lhe segue.

Desde a década de 70, as mais importantes universidades do mundo vêm se dedicando a estudar os efeitos da meditação na melhoria da qualidade de vida das pessoas. O que durante milênios era associado a uma prática geralmente mística ou religiosa, hoje em dia já encontra um campo de atuação que permite seu uso em escolas e empresas, além, é claro, da prática individual, independentemente de uma afiliação religiosa.

Antes de responder à pergunta, gostaria de propor uma observação que pode parecer estranha, mas que é bem real. A maioria de nós se deixa viciar pelos próprios pensamentos. Assim como tem gente que não consegue passar um dia sequer sem comer açúcar ou tomar café, também há aqueles que nunca se desligam, que precisam estar o tempo todo elaborando conjecturas, estratégias, planejamentos. E é nesse ritmo, muitas vezes frenético, que surgem as ideias limitantes que as impedem de fazer uma escolha saudável como a prática da meditação. Por exemplo: eu não consigo parar de pensar, então não posso meditar; não tenho tempo para poder me dedicar à meditação; meditar é algo muito parado, não combina comigo. Todas essas frases são crenças e não correspondem ao real sentido que a meditação traz para quem a pratica.

 

"A dor não é uma objeção contra a vida"  

(F. Nietzsche) 

 

O ano novo desperta em cada pessoa a oportunidade de renovação, de mudanças, de novos planos. Talvez seja a época em que se assume de maneira mais evidente a escolha que se pode fazer para superar suas próprias contradições. Pode ser apenas uma fantasia ou o despertar de um desejo, porém indica que há movimento dentro da pessoa mostrando que é possível sair da zona de conforto para encarar de frente a difícil tarefa de se tornar quem ela realmente é, realizar seu propósito de vida. 

“Cada vez que você sofre, principalmente no plano psicológico, procure o apego. Ele está sempre aí. Tome consciência dele e ele se afastará”. (Pierre Weil)

 

 

Grande parte dos problemas emocionais que desenvolvemos está relacionada às emoções que são criadas quando o Ego é atacado e uma defesa se forma de maneira imediata. A raiva e a agressividade são componentes normais numa situação dessas. O problema fica mais complexo quando as emoções desse tipo persistem por muito tempo e se tornam entraves ao pleno desenvolvimento da pessoa, comprometendo seu bem estar, sua paz pessoal e sua liberdade.

A determinação é o resultado de uma escolha. Você pode se acomodar na posição em que está, ou se movimentar, correndo o risco de alcançar os seus objetivos. O problema é que muitas vezes as pessoas se aprisionam a sua zona de conforto e não dão chance para que a determinação se desenvolva.