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  • Camilo Mota

A delicadeza da espera



Camilo Mota


Ansiedade é uma palavra que vem habitando os consultórios como uma febre que não quer passar. E como toda febre, atinge a superfície do corpo com um calor que acaba se confundindo com a própria existência. As pessoas chegam a afirmar que são ansiosas como se este componente definisse a totalidade de sua subjetividade. E muitas vezes acaba compondo mesmo por conta das formações de sintoma.


Esse efeito de se sentir em estado de velocidade acelerada é fortalecido ou potencializado pela construção social em que vivemos. Pierre Levy nos chama a atenção para a relação que temos com o mundo como uma grande rede de interfaces, que a todo momento está em mutação:


“Basta que alguns grupos sociais disseminem um novo dispositivo de comunicação, e todo o equilíbrio das representações e das imagens será transformado, como vimos no caso da escrita, do alfabeto, da impressão, ou dos meios de comunicação e transportes modernos”. (LEVY, 2010, p. 16)


O homem que viu o avanço tecnológico da máquina a vapor e da emergência da industrialização foi diretamente impactado pelo movimento das engrenagens e passou a pensar nesse ritmo de fábrica. Toda uma engenharia social se desenvolveu no sentido de nos tornarmos peças dessa grande indústria, que passa pelos campos da economia, da educação, da cultura, da saúde. A literatura moderna nos deu exemplos vibrantes desse novo ritmo entre o final do século XIX e início do século XX. Atualmente, queremos tanta velocidade que elegemos uma pílula para lidar com a ansiedade ao invés de atuarmos com nossa mente e nosso desejo de autoconhecimento.


No limiar do século XXI, entramos numa nova era de representações, de produção e de consumo, redefinindo nossa relação com o tempo. A aceleração sentida nos primeiros tempos da Revolução Industrial é hoje materializada numa configuração de um tempo que flui o tempo todo num impulso rumo a um futuro que se abre sabe-se lá para onde no instante seguinte. Não há mais tempo para se refletir e escolher: é preciso correr para não ficar para trás. Para trás de quê? Talvez um medo inconsciente de perder a própria subjetividade, que oscila entre uma tentativa constante de se apegar a alguma coisa para ter uma identidade, e um movimento de constante mutação e de atualização.



Deleuze e Guattari (2012, p. 73) chamam a atenção para esse fluxo de segmentações a que chamamos nosso “eu” e que muitas vezes nos confundimos com ele, numa busca constante de algo sólido, que nos defina:


“Nossa vida é feita assim: não apenas os grandes conjuntos molares (Estados, instituições, classes), mas as pessoas como elementos de um conjunto, os sentimentos como relacionamentos entre pessoas são segmentarizados, de um modo que não é feito para perturbar nem para dispersar, mas ao contrário para garantir e controlar a identidade de cada instância, incluindo-se aí a identidade pessoal.”


Caminhamos, assim, num sentido de angústia (um buraco se abre na subjetividade, uma fenda ou um abismo) entre dois polos: o que virá e que desejamos ter algum controle, e o que já fomos e que pensamos poder manter intactos. Essa é uma das prováveis raízes desse estado a que chamamos de ansiedade, que eu definiria como uma subtração de nossa delicadeza em saber esperar.


Esperar é também um fluxo que opera numa dimensão de movimento e transformação e está muito mais associado ao devir do que ao controle. Por isso é tão delicado, tão sutil e tão incômodo. A espera é um exercício de delicadeza na medida em que nos permitimos ouvir e ver todos os movimentos que nos constituem e, aí sim, percebermos que há inúmeras velocidades e não apenas uma única. Temos a tendência de nos conectarmos com o que nos impulsiona para o novo: é isso que a tecnologia atual nos provoca e às vezes condiciona. Mas somos essa provocação? Ou apenas nos deixamos contaminar por um fluxo e acabamos por nos identificar com ele?


Podemos sentir isso em pequenas ações cotidianas, como a possibilidade de acelerarmos o áudio de uma mensagem de WhatsApp, por exemplo. Isso fere nossa capacidade de escuta e atinge diretamente nossa relação com o tempo. Deixamos de cultivar a paciência.


O sentido da espera é uma forma de agir à espreita, com mais atenção, para decidirmos a velocidade que queremos dar a nossa própria vida, não porque sejamos um ser identitário, mas porque somos composições móveis, também em mutação, e que às vezes precisamos ir mais lentamente para poder saborear o próprio fluxo de viver. Desse modo podemos construir uma singularização, podemos nos destacar, sermos diferentes e não o resultado de uma fábrica que produz modelos prontos, em série.


Sentar e esperar. Erguer-se e caminhar. Correr também. E saber a hora de descansar. A vida é mais do que uma corrida desenfreada rumo ao nada. A própria morte é uma estação de espreita, nossa condição de existência. Refletindo sobre isso, sobre esse inexorável destino, percebo a morte como uma vizinha que às vezes bate à porta para pedir uma xícara de açúcar e saber se ainda estamos em casa. Ao mesmo tempo, devemos alimentar paciência com a vida e que a morte é uma esperança e não uma finalidade. É nesse limiar que podemos, então, sentir a vida em sua pujança, com seus ritmos variados e nos conectarmos aos fluxos, sem, no entanto, nos deixarmos invadir por um tempo que não seja o nosso. Cada um de nós tem um ritmo. Cabe-nos apreciá-lo de maneira singular e nos movermos delicadamente para não ferirmos a vida, essa frágil instância formada na diversidade e no movimento.


REFERÊNCIAS

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia 2. Volume 3. 2ª edição. São Paulo, Editora 34, 2019.

LEVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. 2ª edição. São Paulo, Editora 34, 2010.


Camilo Mota é psicanalista e terapeuta holístico (www.camilomota.com.br). Instagram: @camilomota_psicanalista

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