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A fala criativa no contexto da terapia




Camilo Mota


A fala é um modo de nos distinguirmos de outras espécies e de nos singularizarmos na relação com as outras pessoas. A palavra faz a mediação com a realidade, e certamente acaba se sobrepondo a ela de maneira que acabamos nos confundindo com o próprio discurso que elaboramos sobre nós mesmos e sobre os outros. Quando vai para uma sessão de terapia pela primeira vez, o sujeito está se implicando a colocar sua fala no fluxo do encontro com ela mesma. A palavra que é dita para o psicanalista retorna sobre o sujeito, transformada ou não. E esse é um dos pontos mais interessantes de uma terapia: a possibilidade de reconhecimento, descoberta, ocultamento, revelação de tudo aquilo a que damos nomes a partir de lugares que assumimos e que nem percebemos que estamos neles.


Observe uma criança falando. Com quem ela está se relacionando e que palavras está usando? O que ela busca? É atendida ou afastada? Como ela reage? Chora? Se afasta? Sente raiva? Qual lugar ela ocupa na relação?


Observe agora um casal que vive sob o mesmo teto há algum tempo. Quem fala e quem escuta? Quem cede? Quem se impõe sobre o outro? Em que momento isso acontece? Ambos se deslocam e mudam de posição? Alguém fala de cima e outro de baixo? Ambos falam do alto, tentando se sobrepor ao outro? Gritam? Choram? Dialogam verdadeiramente?


Em ambas as situações a fala conduz o ritmo. Às vezes para reprimir e subjugar, noutras para reforçar processos de vitimização, mas também para estabelecer novos vínculos que venham a tornar a relação dinâmica, saudável, em movimento. Nesse ponto poderíamos anunciar que haveria, no mínimo, duas possibilidades de relação: uma vertical e outra horizontal. E eu arriscaria ainda a propor uma terceira forma: uma relação em espiral. Todas elas estruturadas numa linguagem, que aqui estamos considerando como a fala, mas também não podemos deixar de lado os silêncios, o movimento dos corpos, as ações e comportamentos. Avançaremos sobre isso mais adiante.


Quando na terapia, o sujeito reclama do cônjuge, está falando muito mais de si mesmo do que da pessoa com quem está se relacionando. É desta fala singular que podemos extrair os elementos que estão em jogo. Qual a posição desse sujeito no mapa da relação? O encontro se dá de forma vertical ou horizontal? Ou seja, há uma hierarquia na relação, com um mandando mais do que o outro, ou ambos querendo mandar, ordenar, se empoderar em cima do desejo do outro? Colonizar territórios? Invadir e tomar posse? Esse processo exige reconhecimento. A terapia favorece uma reacomodação do próprio discurso, para que ele seja escutado não apenas pelo analista, mas principalmente pelo próprio analisando, aquele que fala.


Ao se escutar, a palavra que foi proferida ganha novas dimensões e cria realidade. Essa criação é a força motriz que provoca as mudanças que são percebidas muitas vezes pelos outros, que chegam a dizer: nossa, você mudou tanto depois que começou a terapia! E a palavra dita ao analista é a revelação de um estado, de um modo pelo qual o sujeito está se mostrando ou se escondendo, se protegendo ou disfarçando, se deixando ser visto e ser tocado. É um grande momento e isso nem sempre é confortável.


Assim como nas nossas relações interpessoais podemos nos deslocar em eixos verticais e horizontais, no processo terapêutico o movimento é em espiral. Num eixo vertical, uma pessoa assume o comando da relação e a outra se submete, mesmo que sob protesto. Numa reação contra a força que a oprime, pode também buscar se mover verticalmente para ficar por cima, e então o conflito está formado. Lutam um contra a força opressora do outro.


Numa relação horizontal, ambos se posicionam na frente, ao lado ou atrás. As forças de conflito que possam existir são recompostas de maneira que se busque um equilíbrio que envolve empatia, escuta, respeito. A relação é mais dialógica, e mesmo quando há divergência, as forças envolvidas vão se conciliando de modo a encontrar seu lugar comum, uma zona de passagem que permita-se novamente alcançar o outro, tocá-lo e reelaborar os discursos para que percebam que isso gerou movimento, transformação e criação de novas realidades que podem ser partilhadas.


Muito parecido com a relação horizontal, a proposta de uma relação em espiral é que me parece definir melhor um processo terapêutico. Tomo emprestada uma definição poética e inspiradora de espiral feita por Fenando Pessoa em seu “Livro do desassossego”: “Uma espiral é um círculo virtual que se desdobra a subir sem nunca se realizar”. Imagine um círculo que nunca se fecha, e no entanto ele se mantém em movimento, podendo ir em direções de avanço ou retrocesso, pode se expandir ou contrair, ir para cima ou para baixo. A espiral comporta nesse fluxo tanto aspectos verticais quanto horizontais. Há momentos em que o terapeuta parece numa posição superior (como no conceito de suposto saber), mas também o analisando sobe em direção a outro patamar, quando realiza uma elaboração que lhe traz novos sentidos para seu modo de viver. E, no entanto, o fluxo continua e ambos, terapeuta e analisando, seguem circulando um ao outro, mas nunca cortando o fluxo, nunca fechando o círculo, porque depois que terminou uma volta, outra volta se inicia e o processo flui.


A fala cria novos fluxos, novas conexões e transformações. Há muitas maneiras de se encontrar através da fala. Aqui estamos abordando os modos de encontro entre pessoas, seja num contexto de relação afetiva, seja dentro de um consultório de psicanálise. Porém, essa fala pode se expandir para outros diálogos, como quando lemos um romance, um poema, ou assistimos a um filme. Observe se sua relação com as expressões de arte são horizontais, verticais ou em espiral. E aproveite para fazer novas construções de si nesse contexto de mudanças, falas e silêncios.


Camilo Mota é psicanalista e terapeuta holístico.


Instagram: @camilomota_psicanalista

Facebook: @camilomotapsicanalista


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