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  • Camilo Mota

A PRIVATIZAÇÃO DO DESEJO



Camilo Mota


Deparei-me com uma foto do consultório do Dr. Sigmund Freud. E logo me reportei também à minha sala de terapia, com seus móveis, sua disposição corporal num espaço-tempo de encontros. Veio-me à mente o quanto a psicanálise tem um caráter templário. Adentrar uma sala de análise é como entrar num templo, no qual o sagrado e o profano se encontram para um diálogo em que o desejo logo se apresenta com toda sua força ou fraqueza.


O espaço criado para a análise tem esse ar privado, de um indivíduo que se coloca em uma cela na qual pode meditar, mediar, elaborar, criar. Ali, no privado, ele tem a oportunidade de, muitas vezes, reconhecer que primeiro foi o desejo que se tornou privado, e que a privação do desejo é também um componente essencial dessa busca por entendimento e de recuperação de sua própria força vital.


O contexto psicossocial em que vivemos é um reino público de sujeitos privados. Cada qual sente a falta como sentido de sua angústia. Ele busca o que lhe falta, porque, nalguma instância, lhe foi roubado, escondido, recalcado, transmutado numa ausência na qual muitas vezes leva a um nada, a um vazio (a depressão não é isso?). Essa privação do desejo nasce da privatização dos corpos. Cada qual cuide de si mesmo, mas bem adequado às normas e registros que a sociedade, em seu agenciamento coletivo, impõe como uma realidade a ser vivida para que tudo funcione de acordo com regras de bom comportamento, bom pensamento, e bons ideais. É tanta idealização, que o sujeito confunde o próprio desejo, e este se ausenta para ser substituído por outro artificial, tido como coisa dada.


O desejo não vem de fora, nem de uma força transcendente orientada por Deus, nem desse imaginário senhor forjado na frequência sedutora do capital. Ele é o movimento da vida dentro de nossos corpos e mentes. É o que nos faz criar, sentir e mudar. Quando isso se perde, ou se esconde, eis que buscamos algum alívio, um bálsamo que venha nos preencher. Alguns procuram igrejas, outros vão ao psiquiatra ou ao analista.


Michel Foucault, em sua História da Sexualidade, ressalta o papel do cristianismo em sua apropriação do discurso através do ato de confissão. Ao padre se confessam os pecados. A confissão legitimada é uma forma de se alcançar um perdão de alguém que detém esse poder. Muitas vezes na clínica, esse cenário se repete. O analisando também usa a transferência para alcançar esse estado privativo no qual seus pecados, angústias e dores possam ser compartilhados e aceitos diante da autoridade legitimada do analista. Em certa ocasião, num desses atos falhos tão comuns na clínica, um analisando me chamou de pastor. No entanto, esse caráter de templo envolve uma outra condição. Não é o analista a fonte de poder, de força, mas sim o próprio desejo do analisando.


No “templo psicanalítico” flui um tempo próprio provocado pelo agenciamento de duas potências que se relacionam num jogo de forças, mediados por palavras, pela fala, mas também vivenciados pelo estar num lugar comum, num território de travessias. Assim, cria-se um espaço de invenções, de retorno à criação de si mesmo, onde as pessoas envolvidas no encontro se harmonizam num processo cartográfico, onde as camadas e linhas de força vão sendo traçadas, redesenhadas, às vezes rasgadas e destruídas, mas também transmutadas na potência de vida de ambos. Compreendo, assim, que o espaço terapêutico não se resume a uma sala fechada em que duas pessoas conversam, mas também no fluxo que isso gera no entre e no depois, naquilo que causou uma transformação que envolve vida, entendimento, razão, sentimento, força vital, capacidade de criar, de produzir realidade. O desejo, então, deixa de ser privativo e caminha dentro de uma condição relacional. Colocar-se em relação é fazer fluir o movimento, tanto de entrega quanto de recepção, em que se valorize o acontecimento, o ato, o sentido de se estar vivo pela simples alegria de viver.

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