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  • Camilo Mota

AMOR DE TRANSFERÊNCIA: UM DESAFIO NA CLÍNICA PSICANALÍTICA

Amor de transferência, segundo Freud, é o fenômeno em que a paciente se apaixona pelo analista, seja de maneira declarada, seja por sinais que assim o indiquem. O tema foi desenvolvido num artigo escrito em 1915 (“Considerações sobre o amor de transferência”), no qual sobressai o fato de uma mulher se apaixonar pelo seu médico, o que retrata o perfil social da psicanálise em seus primórdios, bem como da própria sociedade da época. Mais de um século depois, o quadro se tornou mais complexo na medida em que a sociedade avançou no sentido da diversidade e da maior abertura à participação da mulher no campo do trabalho, implicando nisso também o grande número de mulheres psicanalistas em nossos dias. Hoje podemos falar do amor de transferência acontecendo entre analista e analisando, independentemente dos gêneros envolvidos, o que implica em dizer que o processo que coloca em movimento o fenômeno da transferência está relacionado ao dinamismo da mente, às pulsões que são inerentes aos seres humanos, independentemente de sua orientação sexual.


A importância do tema decorre tanto por conta da questão teórica que ele envolve (a transferência) quanto pela grande frequência em que aparece no curso das sessões.


Mesmo que não ocorra o Amor-Paixão, que é o tema fundamental do texto, podemos observar com frequência os casos em que os pacientes fazem elogios ao analista, colocando-o num grau de importância diferenciado. Percebemos que mesmo aí já está havendo uma transferência, de maneira que o paciente, dependendo do contexto, está se colocando numa posição de ser reconhecido como objeto de amor. É como se dissesse: “Se eu te elogio e te recomendo a outras pessoas, é sinal de que te amo e você deve corresponder a esse amor, mesmo que esse amor esteja disfarçado como respeito, admiração, etc.” Porém, nesse caso, estamos dentro da lisura e não haveria complicações éticas a serem enfrentadas de maneira mais ativa, ainda que sempre é importante ficar atento ao sentido dos significantes que estão envolvidos, pois sentimentos de ambivalência sempre podem irromper durante o processo.


Freud parte, de início, da visão que um leigo teria da situação em que ocorra realmente uma paixão em relação ao terapeuta, oferecendo três caminhos possíveis:


1) Assumir a relação duradoura (o que é raro de acontecer)

2) Assumir uma relação temporária e ilegítima (o que implica numa barreira ética que impede tal procedimento)

3) Encerrar a análise e manter distanciamento.


A terceira hipótese, no entanto, não resolve a questão, uma vez que, havendo um processo de neurose de transferência em curso, a paciente irá repetir o comportamento com o próximo analista, e assim sucessivamente.


Para o bom fluxo da análise, caberia à paciente dois caminhos diante da ocorrência da transferência: ou renuncia ao tratamento por não se sentir confortável com a situação criada (e aí entrarão vários mecanismos de defesa, repressão ou inibição) ou aceita o destino de ter se apaixonado pelo médico e prossegue até esclarecer a fonte de suas pulsões e os destinos que estão tomando no setting analítico.


No lado do terapeuta, é uma oportunidade de reconhecer o quanto está preparado para enfrentar a situação e o quanto de contratransferência pode estar envolvida.


Diz Freud:


“Ele tem que reconhecer que a paixão da paciente é induzida pela situação analítica e não pode ser atribuída aos encantos de sua pessoa, e que, portanto, não há motivo para ele ter orgulho de uma ‘conquista’, como seria chamada fora da análise”. (Considerações sobre o amor de transferência, 1915)


O risco de ocorrer a transferência amorosa é que a paciente perca o interesse pela análise chegando mesmo a dizer que está curada e passando a se dedicar ao cultivo desse amor. Para o analista, acontece o risco de acreditar que realmente aconteceu a “cura”. Nesse ponto, Freud cita o exemplo do grito de incêndio durante uma peça de teatro. É um falso significante.


O surgimento da transferência amorosa traz consigo o fenômeno da resistência. A análise fica comprometida, uma vez que a paciente muda de papel, assumindo uma postura de desejo que submete o terapeuta a uma outra posição, a de amante. Nesse ponto, Freud argumenta que a disposição para a entrega amorosa sexual justifica a repressão. Ou seja, diante da possibilidade de ser amada, abre-se mão de prosseguir no processo de elaboração e de reconhecimento do desejo para passar logo ao ato, ao gozo, à satisfação imediata.


Porém, diante do avanço do desejo sobre o território do analista, abre-se o campo próprio da psicanálise, o de compreender as pulsões do inconsciente que estão no jogo da sedução. Abrindo mão da moral e dos bons costumes da época, Freud se posiciona firme no enfrentamento deste desafio.


“Exortar a paciente a reprimir, renunciar ou sublimar os instintos, quando ela admite sua transferência amorosa, não seria agir de maneira analítica, e sim de maneira absurda. (...) Teríamos apenas chamado o reprimido à consciência, para depois novamente reprimi-lo, amedrontado”. (op. Cit.)


Freud evoca o princípio da veracidade analítica para chamar a atenção para a importância da neutralidade do analista, ao mesmo tempo em que usa o desejo como matéria bruta a ser lapidada durante a análise. O material que emerge do inconsciente é a razão pela qual estamos trabalhando no setting analítico.


“Quero é estabelecer como princípio que devemos deixar que a necessidade e o anseio continuem a existir, na paciente, como forças impulsionadoras do trabalho e da mudança, e não procurar mitiga-los através de sucedâneos”. (op. Cit.)


É preciso, pois, acolher o desejo da paciente, ao mesmo tempo em que não se ceda sua satisfação imediata. Isso faz com que a paciente dê vazão ao que estava reprimido e ela compreenda à luz da consciência as fantasias de seu anseio sexual e os fundamentos infantis de seu amor.


Em um texto anterior, 1914, Freud lembra que o processo em andamento na transferência tem raízes na infância e é nesse ponto que podemos chegar para alcançar o sentido do que está acontecendo no momento atual:


“Verificou-se que a análise não pode esclarecer nada atual senão referindo-o a algo passado, que toda vivência patogênica pressupõe uma bem anterior que, embora ela mesma não patogênica, empresta ao acontecimento posterior sua qualidade patogênica”. (Contribuição à história do movimento psicanalítico, 1914).


E voltando ao texto em estudo, Freud traz a questão do respeito ao desejo como algo legítimo da paciente.


“Não temos o direito de recusar o caráter de amor ‘genuíno’ à paixão que surge no tratamento analítico.” (op. Cit.)


A meta da análise, portanto, conclui Freud, é aprender a “superar o princípio do prazer, a renunciar a uma satisfação próxima, porém inaceitável socialmente, em favor de uma mais distante, talvez bastante incerta, mas psicológica e socialmente inatacável”.


REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Contribuição à história do movimento psicanalítico (1914). In. Obras completas volume 11. Tradução Paulo César de Souza. Ed. Companhia das Letras. Edição Kindle.

FREUD, Sigmund. Considerações sobre o amor de transferência. In: Obras completas volume 10. Tradução Paulo César de Souza. Ed. Companhia das Letras. Edição Kindle.


Camilo Mota é psicanalista, e um dos coordenadores do Grupo de Estudos Freudianos em Araruama (GEFA). O presente resumo foi apresentado no estudo online realizado no dia 25 de março de 2021.

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