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  • Camilo Mota

As estradas da solidão e dos encontros

O que há de tão intenso na experiência do cinema deve ser mesmo essa capacidade que as imagens têm de nos raptar da força subjacente que o simbólico, as palavras, a fala, nos impõem. Uma película costura imagens, sobrepõe o tempo, reconstrói caminhos e mexe nos eixos que nos ligam ao imaginário, aos processos criativos do inconsciente.


Parece que toda a alma do universo pode ser transfigurada na tela, e tudo é possível. Inclusive tocar a profunda solidão da natureza humana e elevá-la a graus que a distingam dentre tantas formas de expressão dessa mesma natureza. É esta solidão que me impressiona quando assisto, por exemplo, aos filmes de estrada de Wim Wenders. O imenso vazio percorrido entre as cenas, onde as palavras não perturbam, mas acabam fazendo parte como pedaços da paisagem, como fluxos naturais daquele tempo que está fluindo.


As estradas dessa história remetem às possibilidades de encontros. Entre tantas solidões, há encontros de solidões. Escreveu Aldous Huxley em seu clássico “As portas da percepção”: “Vivemos juntos, atuamos uns sobre os outros e reagimos uns aos outros, mas sempre, e em todas as circunstâncias, estamos sós”.


Essa peculiar situação do homem, no entanto, causa estranheza em muitas pessoas, talvez na maioria, que temem ficar sós, abandonadas, sempre em busca de algo ou alguém que as complete, acompanhe, dê a mão. No entanto, do lado de cá do abraço há somente um organismo vivo em suas somatizações constantes para preservar a própria vida, a própria substância, o próprio alento.


Ainda que consciente desse estado de completa autonomia, partimos em busca do outro, dos outros, do compartilhamento desse corpo. Construímos estradas, fazemos nossas viagens diárias para encontrar um olhar, um aperto de mão, um carinho, uma voz... qualquer coisa que venha a nos dizer que, mesmo sozinhos, há outros solitários que convivem nesse mesmo mundo repleto de sofrimento, dor, mas também de alegrias.


Tudo o que olhamos, tocamos, cheiramos é o que carregamos em nós na construção de uma subjetividade em constante construção, móvel. Numa cena de “Alice nas cidades” (Wim Wenders, 1974), o personagem faz fotos de polaroide de diversas paisagens, e num instante se questiona sobre os três aspectos que envolvem essa experiência estética: a coisa em si que ele viu, o que ele viu-sentiu-pensou em seu olhar, e o que a foto representou. E a foto raramente, ou nunca, expressa a verdadeira natureza do que ele viu e sentiu naquele momento único. A foto congela o instante, mas na expectativa da imagem se revelando no papel já existe um outro olhar, um outro homem, que contemplou um objeto, tentou capturá-lo, mas este lhe fugiu.


Quando transpomos esse eixo para o atravessamento de nossas subjetividades, percebemos o quanto tantas vezes não permitimos que as estradas sejam apenas estradas, e que os encontros sejam repletos de vitalidade. E surge a angústia das encruzilhadas, das curvas mais fechadas, ou daquelas retas infinitas que parecem levar a um lugar tão distante que nunca chega.


Enquanto viajamos, estamos sós, e é preciso aproveitar o caminho. Fotografar as paisagens e pessoas. Aproveitar o silêncio. A palavra que fica à espreita de um “bom dia, como vai”, um “eu te amo”, “que bom te encontrar”.


Camilo Mota é psicanalista e terapeuta holístico, membro da Academia Araruamense de Letras, e editor do Jornal Poiésis.

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