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  • Camilo Mota

BRINQUEDOS E FERRAMENTAS



Camilo Mota


Muitas vezes penso a clínica como uma oportunidade de gerar invenções. Ainda que estejamos marcados, de certa forma, pelos conceitos e teorias, sempre estaremos diante do inusitado, do espanto, do que precisa ser conhecido além das fronteiras que algum dia acreditamos serem fixas e constantes. Quando o analisando chega para a primeira entrevista, me deparo com o lúdico que todo encontro nos contempla: o novo que se aproxima, o estranho que bate à porta, um universo de possíveis que se apresenta convidando a uma jornada de conhecimentos múltiplos e talvez infinitos.


É como se cada um trouxesse caixas que vão se abrindo aos poucos. Algumas estão cheias de brinquedos. Noutras, há ferramentas que estão há muito guardadas e que nem se sabia estarem ali a disposição. Nessa metáfora, o fazer analítico é o devir que se manifesta no uso que se irá configurar e compor a partir dos encontros que se dão através das palavras faladas, dos gestos, olhares, silêncios.


Abramos as caixas e espalhemos no chão da sala todos os objetos de que se dispõe. Os brinquedos nos convidam à ação inventiva, à criação de um devir criança onde as perspectivas mudam na medida em que nos permitimos brincar, criar jogos com a realidade. Rir da inocência que ainda trazemos conosco na vida adulta. As palavras são também brinquedos com os quais podemos nos divertir, dar voltas, rodopiar, jogar para o alto, e depois observar que novas frases se formaram em seu movimento. E daí criar novas brincadeiras, novos modos de ser e agir diante de cada peça que foi sendo revelada enquanto a caixa vai ficando vazia de si, e no entanto plena, lugar em que guardamos as boas coisas que aprendemos com tudo aquilo que nela guardamos. E que a qualquer momento pode novamente ser esvaziada. Há também um jogo especial em abrir e fechar a caixa, em encher e esvaziar sua estrutura.


E existem as ferramentas, os elementos com os quais iremos esculpir, escrever, pintar, tocar, raspar, fincar, furar, cortar. Elas nos colocam diante do poder de tornar a vida uma obra de arte. E cada um traz um tanto dessas coisas a que chamamos dons, capacidades, vontade, que apontam o desejo para a realização de si mesmo, para a potencialização de sua própria existência. Realizar simultaneamente o dentro e o fora, pois que ambos são composições da existência.


Nesse fluxo de corpo e discurso, damo-nos conta de que brinquedos e ferramentas se permutam entre si. Que podemos brincar e agir, alegrar-se com as próprias angústias, fazer da dor uma companheira, criar caminhos novos através da invenção de nós mesmos.


Camilo Mota é psicanalista e terapeuta holístico (www.camilomota.com.br). Instagram: @camilomota_psicanalista

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