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  • Camilo Mota

Compete-nos viver

A morte não é o contrário da vida, seu contrário é o nascimento. A frase me despertou a atenção ao ouvi-la de um paciente esta semana. O conceito de vida veio se assentar às reflexões e meditações que eu já vinha fazendo nas últimas semanas na busca de mais entendimento sobre nosso relacionamento com o tempo, a espera, a transitoriedade. Nascimento e morte são extremos, são passagens, portais que se encontram e se tocam na dimensão da transcendência humana, mas o que há “entre” é o que verdadeiramente nos importa: a vida que vivemos.


Desde o nascimento, aprendemos a despertar instintivamente para a força de viver. Os primeiros incômodos com o frio e a fome nos impelem a buscar abrigo e nutrição. Daí em diante é uma sucessão de provas, dores, desconfortos, mas também de alegrias, de satisfação. Saber pesar entre a dor e o prazer o sentido do existir é o caminho para fortalecer nosso contato com a realidade e com tudo que com ela advém.


Nesses tempos de pandemia do coronavírus, o estágio do viver apresenta-se sob uma ameaça invisível, tanto do vírus quanto das ideias de medo que nos assombram como fantasmas de nossa infância. O desconhecido é assustador. Porém, é o movimento em direção a ele que nos mostra o real sentido de viver: alcançar conhecimento e domínio de si próprio para poder reconhecer as várias dimensões em que a vida se nos apresenta.


Nesse ponto, cabe bem a reflexão sobre o que estamos fazendo, produzindo, planejando, sonhando entre o nascer e o morrer. O que estamos fazendo de nossa vida, dessa oportunidade que temos de alcançar mais plenamente nosso propósito de existir, é a questão que pode, entre nós adultos, nos fazer entrar em movimento de ressonância com a pulsão vital que nos anima. Pequenas atitudes diárias nos ajudam a redimensionar esse foco: ampliar nossa assertividade em relação ao que fazemos e pensamos, escolher hábitos mais saudáveis para colocar em prática (como exercícios físicos, manter uma alimentação equilibrada, dar-nos momentos de lazer), desenvolver resiliência diante dos desafios que são impostos de fora e que acontecem a despeito de nossa própria vontade.


O momento em que vivemos é de espera, de uma suspensão e de uma incerteza. Até quando iremos viver entre o isolamento e uma possível volta à normalidade ninguém sabe. O que se pode fazer enquanto isso é viver, ou seja, manter-se ativo, em movimento, mesmo que seja dentro de casa. A vida não se limita a uma sequência de dias que precisam ser convertidos em bens de consumo, mas numa permanente descoberta da pulsão de vida que nos anima a irmos adiante, criando sentidos, mantendo a chama acesa para que não nos escondamos na escuridão da ignorância e do medo.


Camilo Mota é psicanalista e terapeuta holístico, atende em consultório em Araruama-RJ e faz atendimentos online. Site oficial: www.camilomota.com.br


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