Buscar
  • Camilo Mota

DRAGÕES NO QUINTAL



Camilo Mota


“Não perguntaremos, pois, qual é o sentido de um acontecimento: o acontecimento é o próprio sentido.”

Gilles Deleuze


— Seu poema é um dragão chinês.


Maurício disse aquilo com uma ironia cortante. Senti raiva do meu amigo, de seu riso, de seus óculos. Além de não me dar o reconhecimento que eu buscava em meu início de trajetória literária, ainda ousava dar nome ao que eu fazia. Dragões! A imagem de um monstro surgia na minha mente. Um ser mitológico, inexistente, apenas imaginado e ininteligível. Nunca mais olhei Maurício com os mesmos olhos, acho mesmo que fui me afastando cada vez mais. Não sei para onde foi. Fiquei mais perto dos animais que então já começavam a povoar o meu quintal.


Já se vão quase quarenta anos quando vi, então, pela primeira vez, que a minha escrita era povoada de dragões. Continuei a cultivá-los, a dar-lhes alimento e espaço, até que o quintal ficou pequeno, e eles também entraram casa adentro. Comecei a lhes perceber a forma: escamas infinitas a dar contorno e superfície ao corpo, garras que lhes garantem a fixidez na terra, asas que lhes dão o comando do céu. Cada um deles tem um único sentido, mas que se multiplica na leitura como se confrontado com salas de espelhos.


Têm tamanhos variados. Alguns são mansos. Outros assustam. Alguns até mordem e arranham. Vivo entre eles como um pastor de ovelhas, zelando para que se fortaleçam e quiçá também voem para longe, habitando outros quintais. Vão e sempre voltam. E estão sempre nascendo, ora na sala, ora no quarto, em cada cômodo do meu corpo eles traçam o movimento necessário ao parto.


Quando os dragões nascem, há silêncio no mundo. Tudo para e só há o ruído insano das formas que saem das entranhas do corpo, de sua obscuridade, de seu mar profundo, onde a luz não penetra, mas atrai para fora de si um brilho intenso. Pedem espaço cada vez maior, e vão brotando do chão da gente pedindo para voar assim que abrem as asas. E gritam. Gritam muito. Depois, silenciosamente, se deixam desenhar na pele de papel.


Dragões não morrem. Sua alma fica presa entre a tinta e o papel, como um rio subterrâneo, onde mora o sentido do mundo. Quando percebidos do lado de fora, soltam labaredas pela boca, e os homens enxergam as palavras que eles querem dizer. Todo dragão é um invasor de casas. Ele as toma para si enquanto as visita, mas delas não se apossa, porque a liberdade é o que lhe condena ã eternidade. É sempre outro assim. Nunca o mesmo. Dragões têm a metamorfose na pele e podem iludir os homens.


Maurício estava certo. Os poemas eram dragões. O nome que lhes foi dado veio de fora, num batismo que o mundo lhes concedera. Hoje os nomes não importam tanto. Sou um cativo guardador de dragões, que também aprenderam assumir novas formas. São eles que falam. Eu apenas escuto e me regozijo com sua existência.


Camilo Mota é psicanalista e escritor, membro da Academia Araruamense de Letras, editor do Jornal Poiésis. Instagram: @camilomota_psicanalista

56 visualizações1 comentário

Posts recentes

Ver tudo