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HUMILDADE E COMPROMISSO



Camilo Mota


Não é fácil distinguir a gênese dos valores humanos. São pré-existentes a cada um de nós, vindos de um tecido composto de regras ou da essência mesma da natureza dos corpos. Um caso interessante sobre esse aspecto é observarmos a humildade. A virtude que a compõe tem esse viés duplo, e geralmente o campo moral sobrepõe-se ao que seria o natural. Nesse contexto, a virtude é o que forma o estado ético da existência, enquanto a moral é a que estabelece regulamentos e limites.


A humildade é muitas vezes compreendida dentro do campo moral como uma imposição externa ao sujeito. O discurso predominante acaba por associar o estado humilde a uma subjugação dos sentidos, dando margem ao recalcamento de pulsões, do desejo. Confunde-se com humilhação, com abrir mão da própria potência criativa para se adequar a um padrão de comportamento. Dom Juan Matus, o personagem icônico de Carlos Castaneda, diz com bastante propriedade que a humildade de um guerreiro não pode ser confundida com a de um mendigo. Segundo ele, “o mendigo (...) prostra-se de joelhos por qualquer coisa e lambe as botas de quem quer que ele considere seu superior”, e ao mesmo tempo “exige que alguém lhe seja inferior e lhes lamba as botas” (CASTANEDA, p. 25). Agindo sob a influência da moral, principalmente a partir dos dogmas, o sujeito vive sob o signo de um poder instituído. Basta observar a relação entre senhor e escravo, entre sacerdote e acólito, entre patrão e empregado, entre candidato e eleitor. No campo social, a humildade é uma virtude de aceitação e passividade, como modelo de comportamento exemplar que não ameace as autoridades, sejam elas religiosas, políticas ou familiares.


Num outro eixo de compreensão, a humildade enquanto virtude ética se aproxima de uma postura ativa, comprometida com a realidade com a qual está em constante movimento, conflito ou composição de forças. Ao contrário do mendigo, o guerreiro usa-a como ferramenta de força: “o guerreiro não curva a cabeça para ninguém, mas ao mesmo tempo não permite que pessoa alguma curve a cabeça para ele”. O que se tem aqui não é humilhação, mas a essência mesma da natureza da humildade. Dom Juan esclarece: “Um guerreiro aceita o seu destino, seja qual for, e o aceita na mais total humildade. Aceita com humildade aquilo que ele é, não como fonte de pesar, mas como um desafio vivo”. Humildade, portanto, é aliada da responsabilidade e do compromisso. O comprometimento não com a autoridade, mas com a própria potência dos desejos que se atravessam mutuamente.


Nesse nível ético, a humildade flui de dentro e não de fora. Não depende de ser legitimada por uma autoridade. Também encarna limites e limiares. É o reconhecimento da própria fragilidade diante da efemeridade da existência e, ao mesmo tempo, da força que nos permite enfrentar a finitude, encarar a vida como zonas de passagem, como territórios dos quais somos parte integrante na formação da Vida. Diante desta superfície, o ser humano desliza em seu fluxo vital, reconhecendo a diversidade de todos os elementos que entram em conexão direta com ele, seja uma flor, uma formiga, uma pessoa ou uma estrela. E nas relações imediatas, as potências em ato que configuram as pessoas em seus bons e maus encontros. Deleuze e Guattari (p. 15) diziam da relação do homem com a existência, não como o rei da criação, o suprassumo da existência, separado da natureza: “mas antes como aquele que é tocado pela vida profunda de todas as formas ou de todos os gêneros, que é o encarregado das estrelas e até dos animais, que não para de ligar uma máquina-órgão a uma máquina-energia (...)”. Esse processo estaria em conformidade com a humildade no sentido da profunda interrelação conectiva que nos proporciona agir sobre a realidade e também deixar-se tocar por ela, sem mediações, sem autoritarismos desnecessários.


Camilo Mota é psicanalista e terapeuta holístico. Instagram: @camilomota_psicanalista. Site: www.camilomota.com.br


REFERÊNCIAS

CASTANEDA, Carlos. Porta para o infinito. 6ª ed. Rio de Janeiro, Record, s/d.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia 1. Trad. Luiz B. L. Orlandi. 2ª ed. São Paulo, Editora 34, 2011.

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