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  • Camilo Mota

INFÂNCIA COM MEU PAI



Camilo Mota


A memória é uma herança valiosa. É fixa e mutante, se mistura entre fantasias da infância e fatos vividos, faz renascer sentidos e sentimentos. Em várias ocasiões em que bebi o chá ayahuasca, eu me via sentado à varanda de uma fazenda, firme, pernas cruzadas, o olhar delineando a porteira e os confins do mundo. Era como me sentir o extremo, a pele de toda minha ancestralidade, os avós, bisavós e sua existência rural passando através de mim.


Ali naquelas montanhas de Minas, entre pastos e plantações, devia haver pouco tempo para experimentar a improdutividade de certas ações, porque a lida começa cedo, e é preciso cuidar daquilo que se produz: o gado, o leite, a cana de açúcar. Mas há também a água que se bebe na folha da taioba, um arrasta pé lá pelos lados da cidade, um café com broa à tarde na casa dos parentes.


A dura vida no campo, dizia meu pai, o levou a procurar outras fronteiras. Foi para a cidade, comigo e minha mãe. Petrópolis era o novo destino. Dessas andanças, gosto de recordar os caminhos das coisas improdutivas, gratuitas, amenas. Meu pai era mestre nesse andar, ainda que o pragmatismo da vida o consumisse pelo trabalho sempre diligente.


Aos cinco ou seis anos, nossos primeiros tempos na Cidade Imperial, descíamos eu e ele até as Duas Pontes, sentávamos no banco de um ponto de ônibus e observávamos os carros passando. Nos anos 70, os automóveis eram mais coloridos do que hoje. Ficávamos ali apenas olhando. Deve ter nascido daí o meu gosto pela meditação.


Certa vez fomos a um circo. E noutra a um jogo de futebol entre Serrano e Vasco, e foi grande minha alegria ao assistir à vitória do time petropolitano por 2 a 1. Sempre me afeiçoei às pequenas coisas, ao que parece mais frágil e que mesmo assim demonstra força e resistência. A grandiosidade e o poder nunca me seduziram, ainda que eu agencie esse vasto campo do comum de que me aproximo. A autonomia tem essa peculiaridade de saber-se uno e múltiplo, simultaneamente, sem se deixar dominar pela uniformização dos costumes, preservando a singularidade, que está em constante processo de renovação, recriação.


E havia as mangas. No verão, ele se sentava à mesa de almoço já com o fruto ao lado do prato, como uma companheira há muito desejada. Seu prazer era tanto, que somente restava um caroço quase branco. Meu pai chupando manga era a consumação de um ato poético.


Micro histórias constroem bases do muito que elaboramos de nossa subjetividade no decorrer da vida. Os melhores momentos são estes carregados de inutilidade, de coisas simples e comuns. Quando penso hoje na relação entre pais e filhos, imagino o quão mais felizes seriam as pessoas se soubessem melhor aproveitar a gratuidade que a vida proporciona.

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