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  • Camilo Mota

O dilema das redes sociais

Lançado em setembro pela Netflix, o documentário “O dilema das redes” tem provocado muitas reflexões, críticas e elogios, não só pela atualidade e emergência do tema, mas também pela multiplicidade de leituras que podem ser feitas a partir dos depoimentos colhidos, tendo como eixo norteador a fala do ex-designer do Google, Tristan Harris. Entre os muitos fios que podem ser destacados do filme está a compreensão de um distanciamento entre ética e tecnologia, configurando um dos dilemas a serem percebidos na relação humana com as máquinas digitais. Outro aspecto é a manipulação do desejo, criando uma nova configuração de sujeitos, que se alienam do processo criativo e se tornam objetos de valor por parte de empresas que usam da tecnologia para obter lucro, oferecendo em troca pequenos gozos artificiais.


A questão ética atravessa todas as relações humanas e denota o quão delicada é a ligação entre o indivíduo dominado por seu narcisismo secundário e o seu comprometimento com o todo social. Neste ponto, poderíamos compreender a ética como um processo em que a primazia do Supereu conduziria o sujeito a uma conduta de respeito ao outro, de forma a não lhe causar sofrimento ou danos, uma vez que não seria desejável querer para o outro aquilo que não se deseja para si mesmo. Apesar desse sentido parecer sensato, ético por assim dizer, o fluxo narcísico predomina e é estimulado pela máquina tecnológica. As redes sociais, nesse contexto, cumprem o papel de enfraquecer o Supereu e dar vazão aos desejos do Eu e do Id, sem fazer muita distinção entre ambos.


No documentário, um dos pontos que chamam a atenção é o uso de algoritmos que funcionariam como uma “inteligência artificial”, no sentido de que colhem os dados dos indivíduos para criar uma simulação de desejos, com a finalidade de se oferecer produtos e serviços padronizados para o gosto de cada um. É dessa forma que, de maneira simples, procuramos por uma informação sobre um novo modelo de celular no Google e, imediatamente, passamos a ver postagens sobre o produto em nossas redes sociais.


A questão é que o processo não se resume a uma simples coleta de dados, mas a uma manipulação subliminar do desejo, ou seja, o algoritmo não age com inteligência, com ética, com base na verdade, mas no fluxo de cliques, de curtidas, de visualizações. E é nesse ponto que se perde a distinção entre verdade e erro. Se uma notícia falsa recebe muitos cliques, ela passa a fluir entre aqueles indivíduos que, de alguma forma, se identificaram com a mensagem, sem ao menos buscar fundamentações que a comprovem. A ética desaparece e o narcisismo impera, trazendo à tona o pior da sociedade, o pior do indivíduo, fazendo fluir o ódio, o preconceito, a separação, a distinção. Se as redes sociais, num primeiro momento, surgem como uma tecnologia que pode levar a um estado de unidade, de relação mútua e diversificada entre seres humanos, a manipulação dos dados leva ao oposto, colocando em risco não só a democracia, mas a própria espécie humana (basta pensar, por exemplo, nas campanhas absurdas antivacina, ou as crenças de que não existe aquecimento global ou impactos ambientais causados pela indústria, pelo desmatamento, etc.). Este fluxo estimula, ainda, o gozo perverso de muitos.


Outro aspecto que surge no processo de relação entre o sujeito e as redes sociais é o grau de dominação a que cada pessoa é submetida ao permitir que o seu desejo seja manipulado. Harris faz uma comparação muito boa entre ferramenta e tecnologia de manipulação. Se pensarmos numa bicicleta, teremos uma ferramenta que podemos usar quando bem quisermos para facilitar, tecnologicamente, nossa locomoção. Diferentemente, as redes sociais não estão passivas esperando o nosso desejo. Ao contrário, elas formatam novos desejos, criam situações em que nos sentimos obrigados a passar o dedo pela tela do celular em busca de algum prazer em forma de postagem. O recurso de estímulo-resposta gerado pelos algorítimos parece ter alcançado um alto grau de sofisticação, ao ponto de levar o indivíduo a estar constantemente em busca de algo que o satisfaça. Observe você mesmo diante da tela do celular. Tente parar o movimento com os dedos. É quase impossível tamanho o desejo que é movimentado dentro de si em busca do novo, do que virá depois, numa busca constante de algo que está ali a sua espera... e assim já se passaram minutos, horas, enquanto você a todo momento é bombardeado por publicidade e postagens que parecem fazer sentido para você. E a ansiedade vai se configurando como uma companheira invisível que só pode ser suavizada com mais e mais rolagens de tela.


Há muitos dilemas abertos pela questão do relacionamento entre homem e máquina, entre indivíduo e sociedade. Penso que é preciso retomar um processo ético, no qual o indivíduo consiga ser respeitado na configuração de seu desejo, de modo a perceber a importância da produção de sentido que leve a humanidade a um processo de unificação e não de uniformidade, a um fluxo que alimente a diversidade e a liberdade.

Certamente que isso passa pelo indivíduo, pela escolha pessoal, pela educação, mas também pelas instâncias da grande máquina capitalista, que precisa rever seus valores, conceitos, condutas. As redes sociais e seus algorítimos são apenas alguns elementos desse todo orgânico que alimenta, já faz tempo, processos que incentivam a alienação, o narcisismo, a ganância, comprometendo a sobrevivência dos homens e do planeta em que vivemos.


Camilo Mota é psicanalista e terapeuta holístico, membro da Academia Araruamense de Letras, editor do Jornal Poiésis – Literatura, Pensamento & Arte.



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