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  • Camilo Mota

O impulso da auto destruição



Camilo Mota


Limites. Fronteiras. Muros. Campos abertos. Fuga. Pântanos. Montanhas. Vales. Há toda uma geografia que percorre as relações humanas, seus encontros com o fora e seu abismal sentido do dentro. A dor de perceber o mundo como uma ameaça traça uma linha tênue entre a vida e a morte, e não se sabe mais onde uma começa e onde a outra resiste. Na experiência clínica, ouvir alguém falando do desejo de morrer é um desafio à própria sombra que se ergue no desejo do analista. Afinal, que impulso leva ao processo da auto destruição? O que se quer destruir? Por que a morte pode se tornar tão atraente? E onde reencontrar o desejo de viver?


Em “Um crime da solidão: reflexões sobre o suicídio”, Andrew Solomon afirma que “a insatisfação de uma pessoa com a própria vida é menos ameaçadora do que o ímpeto de destruir outras”. E mais adiante, no mesmo artigo, adverte: “(...) suicídio requer o desejo de matar, o desejo de ser morto e o desejo de morrer”. Esses três eixos se articulam na busca de uma situação limite que resolva o conflito que se instaurou no sujeito. Entra em cena uma grande sala de espelhos, onde um Eu ferido articula reflexos que já não sabe mais de onde provêm: se de fora, se de dentro, de alguma outra dimensão onde possa haver algum consolo para o peso de existir sem as marcas do medo, da vergonha, da raiva, das agressões sofridas e das desejadas, do ímpeto de partir para cima e liquidar de vez o opositor. Mas a ambivalência em relação ao agressor (o pai, a mãe, o irmão, o estado, a sociedade...) abre a fenda onde o desejo de destruir se volta contra si mesmo. Nesse sentido, o impulso suicida se articula com a supressão do desejo, daquilo que nasce de si e que não se consegue lidar. Em vez de matar, opta por ser morto. Há um eixo simbólico que teria sido herdado de um sadismo que se inverte em masoquismo numa possessão delirante, numa realização de desejo mal resolvida.


Toda pulsão é um movimento em busca de satisfação e vai encontrar canais para isso, seja através da repressão, da inibição, da sublimação ou voltando-se contra si mesma. Este último mecanismo (descrito por Sigmund Freud para explicar o processo do masoquismo) é um componente das ações auto destrutivas, na medida que a força que poderia ser direcionada para fora se dirige contra o próprio sujeito com o fim de refrear seu desejo. Mas aqui, no processo suicida, não há um gozo propriamente dito. Costuma-se dizer que ferir a si mesmo é uma forma de amenizar uma dor insuportável que só pode ser percebida psiquicamente. Por isso, cortar a própria pele, furar-se, arrancar os cabelos, alcançando um limite, uma zona de fronteira, que pode resvalar no abismo da morte. Às vezes com sucesso.


Onde estaria, então, o gozo, a satisfação e a saída para não converter a morte em ato? Em alguns casos, o gozo flui na vivência do limite, da exposição ao perigo, do viver no limiar, na fronteira entre a vida e o que pode ser retirado dela. “Poder resistir à morte é antes de mais nada reconhecer sua presença e renunciar aos subterfúgios”, escreve Nathalie Zaltman. E esse parece ser um caminho que nos retira do impasse de não querer lidar com tema tão caro às pessoas. O suicídio é mais do que uma subversão à vida, é mais do que uma fraqueza, como pensam alguns. É parte constitutiva do homem. A morte existe como devir para todos. Antecipá-la é uma ameaça constante e que precisa ser encarada como uma forma dessa própria vida se colocar no mundo, ameaçando-o vingativamente, colocando sua permanência em xeque, mostrando sua fragilidade. E, ao mesmo tempo, ao reconhecer que há dentro de si mesmo esse complexo que clama pela morte, pela vontade de se auto destruir, estar atento a resistir e fazer dele um impulso contrário, seja através da sublimação, seja pela transformação do desejo numa realização que satisfaça as forças da vida, reposicionando o gozo e mantendo o fluxo. Carlos Castaneda, em Viagem a Ixtlán, fala que devemos estar atentos à nossa morte como uma companheira, não uma inimiga, nem como uma arma de extinção da força da vida.


Voltando à geografia, nosso corpo é uma usina de relevos variados, que vão se moldando na medida em que as forças da natureza vão agindo sobre ele. Tem horas que somos invadidos por tisunamis, que sofremos terremotos, mas também há os tempos de sol e de brisas. Equilibrar esses polos faz parte do processo da vida. Sair do ressentimento e criar novos sentidos é o desafio que se descortina para cada um de nós em cada amanhecer.



REFERÊNCIAS

CASTANEDA, Carlos. Viagem a Ixtlán. São Paulo, Editora Record.

FREUD, Sigmund. Os instintos e seus destinos (1915). In: Obras completas volume 12: Introdução aos narcisismo, Ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo, Companhia das Letras, Edição Kindle.

SOLOMON, Andrew. Um crime da solidão: reflexões sobre o suicídio. Tradução de Berilo Vargas. São Paulo, Companhia das Letras. Edição Kindle.

ZALTMAN, Nathalie. A pulsão anarquista. Tradução de Anna Christina Ribeiro Aguilar. São Paulo, Editora Escuta, 1993.


Camilo Mota é psicanalista e terapeuta holístico (www.camilomota.com.br).

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