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  • Camilo Mota

O NADA E O VAZIO



Camilo Mota


É comum ouvirmos analisandos dizerem na clínica: “essa ansiedade ou essa tristeza aparecem do nada”. A sensação do inesperado provoca um susto, um estranhamento, e na busca de identificar uma suposta origem explicativa, deparamo-nos com esse aspecto nebuloso, essa névoa que encobre o nascimento das coisas. Esse “nada”, por sua vez, é um signo que nos remete ao desconhecido aparente, que força a consciência, o ego, a buscar uma solução dentro de um universo conhecido, sem nunca ser encontrado. Sigmund Freud diz que “o estranho é aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido, de velho, e há muito familiar”*.


O “nada” é colocado no lugar daquilo que de algum modo é conhecido pela pessoa, mas que pode estar recalcado, esquecido em alguma entranha do seu psiquismo, disfarçado. Como no sonho, quando um elemento é condensado com outro e temos a sensação de que aquilo parece absurdo, irreal, surgido dessa sensação nadificante. Se olharmos atentamente para cada coisa e sensação, para cada afeto que sentimos ao sonhar, podemos nos aproximar dos sentidos ocultos à consciência, mas que estão em constante elaboração no inconsciente, em camadas mais profundas da mente. Encontrar esse “nada” e renomeá-lo é um dos caminhos que surgem no processo de análise. Na terapia, temos a oportunidade de fazer associações livres, acessar outros modos de ver e sentir, construir narrativas sob elaborações em contínua transformação, aproximando-nos assim da própria operação da vida, essa força motriz que está sempre criando a si mesma, sendo sua própria origem.


Do mesmo modo, no estado de vigília, essas condensações aparecem constantemente, na medida em que falamos de coisas aparentemente diferentes, mas que são recorrentes em diversas situações. Uma relação mal resolvida com a mãe, por exemplo, pode ser percebida num afeto sentido em relação ao cônjuge. Ao se falar do marido ou da esposa, muitas vezes o analisando está descrevendo os mesmos afetos sentidos em relações parentais anteriores. Esse deslocamento de afetos gera desconforto. “Tenho uma sensação estranha quando meu namorado chega perto de mim e quero afastá-lo. Não sei de onde vem isso, parece que surge do nada”.


Um meio de lidar com esse processo é o desenvolvimento de um estado de distância. Não um distanciamento físico, mas psíquico na medida em que possamos nos esvaziar, criando um efeito suspensivo. Encontrar o vazio para poder contemplar o nada.


O vazio não é um buraco, um abismo, um silêncio aterrorizador. É o processo de estabelecer uma composição com a própria solidão, de modo a retirar de si a identificação com o ego e com as formas de conhecimento já prontas, estabelecidas, tidas como sabidas. Suspende-se a tagarelice mental. Permitir-se a solidão é um modo de poder entrar nesse ponto de observação, em que se pode analisar cada elemento que está sendo sentido e percebido, e fazer novas sínteses, novas conjunções e disjunções. Criar novos fluxos, agenciamentos, conexões e rupturas, para então perceber que o nada nunca existiu: era apenas um modo de fantasiar os medos, de miracular a realidade como se as coisas aparecessem por geração espontânea. Aproximar-se do vazio é, pois, assumir a responsabilidade sobre a realidade que criamos para nós mesmos e, desse modo, fazer novas composições. Assim, estaremos mais próximos de viver os acontecimentos e fazer uso criativos deles.


Camilo Mota é psicanalista e terapeuta holístico. Instagram: @camilomota_psicanalista. Site: www.camilomota.com.br


REFERÊNCIA

*FREUD, Sigmund. O estranho. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volume XVII. Rio de Janeiro, Imago, 1996. P. 238.

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