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  • Camilo Mota

O PARAÍSO É ONDE MESMO?



Camilo Mota Ele chegou a mim e perguntou: - Doutor, você sabia que no paraíso não existe nem humor nem prazer? Um sorriso me veio aos lábios, entre surpresa e encantamento: - Paraíso existe? - soltei naquela reverberação analítica que me acomete quase sempre no consultório e fora dele. E retomei o discurso. - Me fale mais sobre o paraíso. E meu interlocutor me provocou a imagem, questionando como eu me sentiria se estivesse sozinho, numa ilha deserta só para mim. Eu realmente não sei para que eu precisaria de uma ilha deserta particular, mas a geografia de paz que o espaço natural evoca é talvez a sensação mais ancestral que o ser humano pode ter de um estado idílico, de paz e tranquilidade. Está ali registrada no Livro do Gênesis. Afinal, ao se distanciar das forças vitais que o compõem em sua totalidade de corpo e mente, o homem se afastou do paraíso e o inventou como ideia. E a humanidade passa a buscar esse lugar ideal, sem humor, sem prazer, sem nada. Um lugar tão puro e calmo que eu chego a pensar: "Numa ilha tão paradisíaca, eu teria toda a paz que almejo? Mas, afinal, nessa ilha não haveria sequer mosquitos?". Pronto, o humor invadiu o paraíso e a ilha se desfez. Mas o paraíso permanece. Não mais idealizado: agora composto de todas as forças que agem em mim, no meu corpo. Nós humanos nunca fomos expulsos de paraíso algum, apenas fomos perdendo a capacidade de se encantar com o volume e a intensidade que a vida proporciona, com seus movimentos, formas, linhas, fluxos. Redescobrir o paraíso em nós se faz necessário para compreendermos que somos parte da criação, como as formigas, os fungos e as águias.


Camilo Mota é psicanalista e terapeuta holístico. Instagram: camilomota_psicanalista

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