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  • Camilo Mota

O PODER DAS CURTIDAS



Camilo Mota


Por que desejar tantos seguidores? Por que curtidas e visualizações em redes sociais parecem ganhar uma dimensão vital, quando na verdade são apenas índices, marcadores, registros de cumplicidade?


Estamos diante de uma realidade de poder, na qual nos colocamos para consumo. Produzimos (e somos produzidos) a nós mesmos para sermos consumidos, e quanto mais "bits" gerarmos, mais poder acumulamos. Viver sob esta relação semiótica em busca de uma satisfação aparente mantém o ritmo de um assujeitamento às forças coercitivas de um sistema que, para se manter, exige produção, visualização, falas e falas e falas. Para quem?


Onde há espaço para o silêncio e o vazio? Como suportar viver sem uma máquina e seus signos de captura? Quantas pessoas hoje não conseguem sequer deixar o smartphone desligado por algumas poucas horas! Criar distância é fundamental para se enxergar a totalidade dos movimentos nos quais nos envolvemos.


"Não encarar a questão crucial do vazio emocional dos homens e da rotina equivale a abandonar qualquer esperança de melhorar a sorte da humanidade", escreveu Wilhelm Reich. Tocar o próprio vazio e a solidão, sentir a sua finitude (e onde também podemos sentir e vivenciar o infinito), ao mesmo tempo em que se agencia com os elementos que fortaleçam seu desejo, e não que o rebaixem ou escravizem, eis algo que a contemporaneidade digital nos desperta a fazer.


Não é uma questão de se tornar celebridade, aquela sensação infinita de se fazer eterno por alguns momentos (pequenos gozos artificiais). Mas de saber aproveitar o instante que se vive para exercer a sua própria sinceridade, para poder devolver para a realidade as muitas elaborações e construções internas que devem ser geradas num campo de autonomia. Não é uma questão de manter poder, de se identificar com essas forças uniformizadoras, mas recriar campos de potência, onde a diferença se faça, onde haja amplitude, numa formulação de micropolíticas que se espalhem sorrateiramente entre os zero-um de um mundo binário.


O real e o virtual se irmanam. Não há diferença de natureza entre eles, mas modos de existir. O que se assiste nas redes sociais também acontece no dia a dia das relações materiais. Em todos os campos, corremos o risco de estarmos sempre em busca desse poder que nos aprisiona em sua teia produtiva. Construímos prisões para conter nossa própria força criativa.

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