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  • Camilo Mota

O VOO DA BORBOLETA



Camilo Mota


O quanto somos capazes de fazer composições entre a estabilidade e a impermanência? Essa pode ser a chave para gerarmos campos de movimento e transformação que nos coloquem num devir criativo.


A dificuldade que temos em aceitar nossa vulnerabilidade cria um mito que nos acompanha no cotidiano: tudo deve ser estável e permanente. O deus da estabilidade traça suas normas: precisamos de uma relação monogâmica, queremos um emprego que nos fixe a alguma força produtiva, desejamos reconhecimento para mantermos de nós uma imagem positiva para os outros, idealizada e constante.


Nesse caminho, tudo o que se move é assustador. Daí o medo permanente de que algo aconteça e nos tire de nossa “zona de conforto”, para usar uma expressão que me parece desconfortável. A pandemia da covid 19 é só um pequeno exemplo daquilo que nos gera desestabilizações.


Porém, tudo é instável, inconstante, num permanente devir. Olhe os seus sonhos: quantas miríades de formas ali povoam a mente e o corpo! E pouco delas sabemos se não nos arremessarmos em seu entendimento, em seu fluxo de mutações.

Se um passarinho pensasse que o mundo é estável e esperasse por essa estabilidade jamais arriscaria voar. Mas o que mais me chama a atenção são as borboletas. Você já parou para acompanhar o seu voo? Em que direção voa uma borboleta? Taí um bom mistério para meditarmos. Ela voa num fluxo em que combina a impermanência do ar e a estabilidade do voo, numa duração de movimentos. É certo que ela voa em direção ao tempo dos encontros: a flor que nela vive como uma virtualidade. Quando a encontra, ali permanece e depois se desapega e volta a traçar movimentos desencontrados, sem uma direção fixa, pré estabelecida, mas sempre encontrará seu destino, pois os caminhos sempre levam ao lugar dos encontros.


Camilo Mota é psicanalista, esquizoanalista, terapeuta holístico. @camilomota_psicanalista. www.camilomota.com.br

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