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  • Camilo Mota

Os rubis na pele

A pele é o maior órgão do corpo humano, e também o mais observável. Nosso contato com o mundo externo depende em muito dela. Sensações de frio e calor, espacialidade, ameaças e carinhos, tudo passa por ali e deixa sua marca. Às vezes, sinais sutis que ficam na memória, como a brisa sentida numa manhã de outubro ou o suave roçar de uma mão em nossos cabelos. Mas também cicatrizes, verrugas, angiomas. E as intencionais tatuagens que recriam caminhos e fazem arte pelo corpo.


O passar dos anos com o inevitável envelhecimento do corpo também vai ficando marcado na pele. Fui percebendo em mim esses sinais. Manchinhas escuras, marrons, vermelhas começaram a fazer parte da minha configuração pessoal. Nascem ali sem escolha, sem ao menos eu pensar nelas. Mas como ser de pensamento, não me contento em apenas observar e deixar passar em branco acontecimentos tão notáveis. Afinal, é como se tivéssemos a oportunidade de ver nascer uma estrela quando olhamos para o céu noturno. Ontem, não havia aquele brilho. Então, eis.


E foi assim que comecei a acompanhar o surgimento dos angiomas, aquelas marquinhas vermelhas que vão salpicando a pele. Quando me dei conta, havia tantas que busquei sentidos e pensamentos que a integrassem a mim não somente na pele, mas também na alma, no campo simbólico. E comecei uma brincadeira inusitada. Eu dizia para mim: cada uma dessas bolinhas vermelhas representa um pecado. E aos poucos fui percebendo que eu colecionava um tanto de pecados.


Minha formação católica contribuiu para isso, certamente. O olhar moralizante sobre as ações no mundo permeia os instantes da minha vida. Depois de anos de psicanálise, meditação e um olhar mais fenomenológico sobre o mundo, os pecados perderam o peso, mas ainda assim algumas impressões e imagens parecem manter certa prevalência sobre outras. E olhar a pele como uma marca das ações condenáveis (sob uma perspectiva do supereu) me serviu de compensação. E eu me contentei com isso por um tempo.


E eis que encontro uma dermatologista que me fez ver o outro lado da questão. Na consulta, toda sorridente, ela me disse que aquelas marcas são angiomas rubis, e que com o tempo vamos colecionando na pele muitos rubis. Ora, então carrego comigo muitas joias! E que desvalor eu lhes dava ao associá-las aos pecados e às faltas! Então é hora de vê-las como joias, como pedras preciosas que vêm me lembrar das muitas bênçãos que colhi ao longo dos anos.


Rashid e Seligman (2019) fazem uma observação que nos conduz a um ponto essencial nesse nosso modo de ver as coisas. “Queixar-se, ser crítico é fácil para nós, mas praticar gratidão é difícil. É mais provável nos esquecermos de experiências positivas e nos lembrarmos das negativas. Portanto, é importante aprendermos as competências e os hábitos que nos permitem valorizar o que temos”.


A pele e suas nuances contam muito de nossa história pessoal. E a maneira como a acolhemos reflete ainda nossos estados interiores, as maneiras como elaboramos os pensamentos e também as emoções. Vários problemas cutâneos aparecem quando nosso estado emocional está abalado. Manter a saúde da pele é contribuir para que o corpo e a alma se reencontrem num estado de maior harmonia. E quando olhar para si mesmo em busca dos seus sinais (de vida e de estrada), é bom perceber que rubis são bem mais interessantes do que manchas pecaminosas. Ainda que o medo e as questões negativas sejam importantes na construção de nossa própria evolução, é importante resgatar os aspectos positivos, os estados de gratidão. Afinal, podemos ser portadores de joias preciosas. Depende mais do nosso olhar fazer escolhas mais positivas.


REFERÊNCIAS

RASHID, Tayyab; SELIGMAN, Martin. Psicologia positiva: manual do terapeuta. Porto Alegre, Artmed, 2019.


Camilo Mota é psicanalista e terapeuta holístico, pós graduado em Docência e Prática de Meditação, atende em consultório em Araruama. Site: www.camilomota.com.br. Instagram: @psicanalista_camilomota

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