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  • Camilo Mota

PALAVRAS E COBERTORES



Camilo Mota


Palavras tanto podem apontar sentidos para a vida como ocultar. E todos vivemos essencialmente delas. Damos nomes às coisas, aos sentimentos, a nós mesmos. Palavras são mediadoras, fazem aquele meio de campo necessário para interpretarmos as percepções que o mundo nos traz. Algumas delas carregam uma grande carga emocional e afetiva e acabamos por generalizá-las, sem nos darmos conta do que, enfim, representam. Este texto é um convite a nos aprofundarmos na busca do sentido que as palavras evocam.


Quando dizemos “amor”, a que estamos nos referindo? Muitas vezes usamos a palavra amor para indicar uma série de sentimentos que possuem semelhança entre si, e também para esconder a fragilidade que sentimos diante da vida. Amar é um signo, um verbo que envolve uma atividade, um movimento de união com o outro, ao mesmo tempo em que sentimos uma enorme liberdade de fluxo, de processo de desenvolvimento, em que tanto o eu quanto o outro podem se movimentar, portanto, amar. Porém, na ausência de amor também usamos a palavra amor. Quando, por exemplo, desejamos que o outro se adapte a nós, que aja de acordo com o que queremos para ele, quando o colonizamos com nosso desejo. O que chamamos de amor torna-se, na verdade, vontade de poder, de domínio, de posse. E é nesse jogo que a palavra passa a funcionar como um cobertor, para encobrir o sentimento que está por trás. E que frio é este que se quer ocultar? Talvez o vazio mesmo da própria incompletude, da solitude, do buraco que criamos na alma quando perdemos o sentido daquilo que a palavra representa. Antes da palavra, há o caos, e é no caos que tudo se forma e é dele que podemos partir para reconfigurar os sentidos que damos às palavras que usamos.


Trazer a palavra “amor” de volta a sua representação é um exercício de aprendizado, de treino de sensibilidade, para que possamos sentir antes de dizer, viver antes de simplesmente se acomodar a padrões estabelecidos. Nesse sentido de vivência, “amor” sai da zona determinada do signo para a indeterminação do símbolo. Porque vivenciar um símbolo é percorrer todos os sentidos que ele toca dentro e fora da gente, que ele tangencia a cada novo movimento, sem querer enquadrá-lo dentro de nossas expectativas.


Outra palavra ainda mais complexa é “Deus”, porque não apenas serve de cobertor, mas de lençol, fronha, edredom, manta e um tanto de outras coberturas que estejamos buscando para tapar o buraco de nossa pequenez. E o campo da colonização se abre vistosamente para encobrir os outros e trazê-los para debaixo desse manto sagrado. Quando queremos impor o “nosso Deus” ao “Deus do outro” colaboramos para dizer justamente aquilo que não é “Deus”. Vestimos a palavra com as roupas que achamos que combinam com ela e deixamos de lado as outras infinitas possibilidades de combinação. Em essência, afirma-se que Deus é Amor, portanto seria básico se concluir que a palavra Deus não combinaria com exclusão ou qualquer outra forma de violência ou separação. Mas a palavra é também um cobertor e acabamos por usá-la para ocultar tudo aquilo que tememos mostrar de feio, daí a hipocrisia a que assistimos cotidianamente em meios religiosos ou não. Talvez precisemos tirar de Deus esse excesso de humanidade que nele depositamos para que possamos senti-lo em seu efeito simbólico e transformador, independentemente da denominação religiosa a que se queira aderir. Ou simplesmente ouvir Deus com seus próprios ouvidos, sem intermediações, como um grande Om ecoando no universo, simplesmente soando, assim como nós também soamos com nossos suores, sangue e respiração.


Toda palavra é criadora. Se empregada com sentimento, torna-se mais forte e viva, criando realidade. Por isso o convite desse texto é o de mergulhar naquilo que as palavras têm de vivo, de força, indo além da simples mediação, deixando de ser cobertor para se tornar a própria pele que nos veste.


Camilo Mota é psicanalista e terapeuta holístico, poeta, escritor, membro da Academia Araruamense de Letras.

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