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  • Camilo Mota

PONTUACÕES



Camilo Mota


A vida humana é uma narrativa de múltiplos narradores. Dentro de cada pessoa também ecoa uma grande quantidade de personagens, contadores de histórias, inventores de prodígios, idealizados, convertidos em palavras, sinais gráficos, ritmos e cores diversas. E ainda há as histórias que os outros contam e inventam sobre a gente. Cada ser é uma infinitude de histórias contadas ou por contar.


Se nos olharmos como uma história, um fluxo de movimentos no tempo, com palavras nos desenhando a todo instante, também perceberemos que somos atravessados por sinais, por pontuações, que vão indicando ritmos, delimitando espaços, selecionando, explicando, destacando, reduzindo, percorrendo limiares. Ou simplesmente parando. Ponto.


O ponto não é o resumo da vida, nem seu termo. Muitas pessoas desejam colocar um ponto final em tudo, encerrar ciclos que não parecem ter fim. Seria a neurose em Freud, ou o ressentimento em Nietzsche, ou a rostidade em Deleuze e Guattari. Seja em que base teórica estejamos tocando, reconheceremos logo o ponto a que muitos se assujeitam. Na pressa de terminar, e na incapacidade de vivenciar o acontecimento e efetuar-se plenamente naquilo que se vive, o sujeito cria para si um ponto e gira em torno dele. É como se. A narrativa. Perdesse o. Fluxo. Fica-se truncado numa finalização que não se quer. E desse não querer muitas vezes o suicídio surge como a oportunidade de se colocar um ponto final. Mas a vida não se resume a um ponto somente.


Como numa narrativa, para se ter sentido, para se criar significados e destinos, é necessário dosar o ritmo, saber encadear as palavras, os sons que falamos e ouvimos, dentro e fora de nós, permitindo uma sucessão de vírgulas. Ah, como é importante colocar uma vírgula em seu devido lugar e permitir que ela nos mostre que há uma continuidade, um encadeamento, uma linha, uma sequência que vai enumerando, unindo e separando, definindo os caminhos que o sujeito traça no seu processo de singularização.


E então podemos nos abrir para o espanto! A surpresa! As exclamações! E também para as inevitáveis perguntas, as necessárias interrogações. E por que não? E que outros caminhos podemos traçar narrativamente? Que personagens estaremos vivendo? Que desejo estamos potencializando? São criações nossas ou apenas decalques e fantasmas que criaram de nós ou em nós? Estaremos vivos ou suicidados? A cada resposta, novos sinais surgem e poderemos, enfim, descobrir a superfície e suas zonas de passagem, os tão necessários dois pontos: e atravessamos como criadores de novos mundos, de histórias que se renovam.


A vida não se resume a um ponto, mas pode se beneficiar quando há dois pontos: uma porta que se abre para um outro lado; uma linha de fuga para combater poderes que oprimem; uma janela para se olhar além ou aquém. Dois pontos, dois olhos, inúmeros orifícios por onde fluem a luz, a vida, os acontecimentos... Buracos e túneis reconhecidos como caminhos para a superfície, para a pele e seus poros, que suam e brilham ao sol.


Podemos contar muitas histórias de nós mesmos. Algumas mais verdadeiras do que outras. Cada uma delas fica ainda mais bonita e intensa quando as pontuações são colocadas no circuito das multiplicidades que nos compõem.


Camilo Mota é psicanalista e terapeuta holístico, poeta e membro da Academia Araruamense de Letras (www.camilomota.com.br), Instagram: @camilomota_psicanalista

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