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  • Camilo Mota

RAZÃO, PAIXÃO E SENTIMENTO



Camilo Mota


Parece que esta semana estou enxergando o mundo como uma combinação de triângulos. Não há apenas dois lados num plano, mas três linhas que se movem simultaneamente para formar extensões equiláteras. Também porque é um jeito de procurar perspectivas, tridimensionalidades num processo que se expressa cada vez mais de forma binária na mente das pessoas. Certamente é minha resposta a uma polarização que na política vem ganhando corpo, causando mal estar. Ontem, um analisando marcou comigo uma sessão extra no consultório porque estava a ponto de chorar por causa desse sentimento de inadequação, devido ao movimento passional que está tomando conta de eleitores que perderam todo senso de pudor, ética e bom senso. Talvez não tenham perdido, pois que estão apenas retirando de seu recalcamento as forças que realmente guiam suas vidas, como o preconceito, a raiva, a intolerância, e outras emoções menos nobres.


Isso posto, me vem à mente algumas considerações sobre os modos com que relacionamos essa nova tríade: a razão, a paixão e o sentimento. Por conta da uma prevalência das paixões no cenário atual, começo por ela.


Apaixonar-se é um bom movimento, que nos integra com o objeto ao qual direcionamos o desejo e nos causa prazer. É um dos componentes que podem levar ao amor, à comunhão, ao gozo, mas também pode arrastar para um turbilhão de emoções que tomam de assalto a consciência e a cega. Não se vê mais nada além da própria paixão. Fica-se de nariz furado, como diziam os antigos. A vida passional está sujeita a todo tipo de imaginação, de fantasia, de crenças que passam a habitar a subjetividade. É a lógica que domina as torcidas de futebol, por exemplo, mas aqui ainda estamos num cenário lúdico, onde ainda é possível brincar e criar brigas que simulam os estados de guerra. Salvo os radicalismos que também acontecem, as torcidas organizadas promovem ondas que satisfazem a natureza humana em sua tendência de luta. O problema atual é que o deslocamento desse ludismo simbólico para o campo da política cria outro tipo de situação, porque não se trata de um jogo propriamente dito. A política, como bem coloca Foucault em um de seus seminários, é nossa maneira simbólica de exercermos a arte da guerra. Mas a guerra, nesse ponto, exige o domínio da realidade, exige estratégia, conhecimento, que implica mudanças que afetam diretamente tanto os jogadores quanto a torcida. Numa partida de futebol, se o time A ou B vence não há qualquer implicação na vida do torcedor, apenas no campo das emoções que ele alimentou. Mas na política, o buraco é mais embaixo. Envolver-se apaixonadamente por candidatos leva a uma distorção da realidade que chega à borda do alucinatório, e a imaginação domina onde deveria estar presente a razão que sabe discriminar as condutas, os projetos, as intenções, etc.


A razão, por sua vez, é uma das mais altas virtudes humanas. Ela nos leva a aprofundar a análise, a criar métodos de investigação, a nos distanciarmos do campo passional para mantermos certa neutralidade associativa. Pensar exige cuidado, cautela, avaliação, e isso, sem dúvida, é muito trabalhoso. Mas também a razão tem suas limitações. Pode-se deixar levar por um excesso de racionalismo que também embota a mente e retira sua flexibilidade de ação. Por isso, a razão precisa também estar atenta a sua própria pragmática, a suas mobilidades. Tanto que ela é fundamental para o desenvolvimento científico, e é bom frisar que uma das qualidades essenciais de uma proposição científica é que ela possa ser contestada.


O que proponho, então, é estabelecer um uso harmonioso de razão e paixão, tendo o sentimento como fluxo de encontros, como superfície lisa em que as duas linhas possam se encontrar e formar novas triangulações. O sentimento tem uma natureza incorporal, está num campo de imanência que permite usar da razão e da paixão como forças não antagônicas, mas complementares. Assim, quando se escuta uma palavra ofensiva, por exemplo, usa-se o filtro do sentimento para perceber o grau de racionalidade daquele termo bem como o quanto de traços emocionais estão nele contidos. O sentimento é uma suspensão, é um modo de parar o mundo, como dizia Carlos Castaneda. É preciso parar tudo a nossa volta para ter o entendimento das forças que estão em movimento, e só então fazer uso dessas forças para se orientar no campo do comum.


Camilo Mota é psicanalista e escritor. Acompanhe no Instagram @camilomota_psicanalista, e acesse outros textos no site www.camilomota.com.br/blog


Foto: Phil Scroggs

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