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  • Camilo Mota

Tempo marcado e tempo marcante






Camilo Mota


O propósito desse texto é esboçar algumas reflexões sobre o uso criativo que possamos fazer do tempo. Somos seres que se desenvolvem e se movimentam num campo semântico, no qual o tempo e o espaço se configuram e se atualizam conforme o modo como que neles agimos. Portanto, somos, essencialmente, potências ativas criando realidade, enquanto, simultaneamente, construímos representações através da linguagem.


Nesse contexto, vislumbro dimensões possíveis para se pensar o tempo como fluxo, como um continuum que não se presta a uma concepção estruturalista, mas que também pode fazer uso dela, num paradoxo que nos convoca a olharmos a passagem das horas sob dupla perspectiva. Daí essa dualidade entre o tempo marcado e o tempo marcante, que é o objeto de nosso estudo.


Chamo tempo marcado a um caráter mais estrutural na maneira como concebemos a linearidade cronológica, na medida em que criamos pontuações sobre os signos que nos prendem a determinados fazeres. O trabalho, por exemplo, está bastante vinculado ao tempo marcado: ele se estabelece num eixo de limitações temporais. Temos hora para isso, hora para aquilo, precisamos cumprir cronogramas, finalizar tarefas, estabelecer limites. O tempo marcado é o campo dos vínculos e dos compromissos, das conexões fixas sobre as quais nos inserimos e passamos a nos comportar como peças de uma máquina. Engrenagens de relógios que cumprem sua função dentro de um sistema de signos e de corpos.


O tempo marcante, ao contrário, é fluido. Não precisa de regras nem de relógios, é feito da própria essência do existir, qual seja, proporcionar a sensação de que somos seres viventes. O fluxo vital tem também limites, mas estes variam conforme a situação. Tal tempo é elaborado em intervalos, no entre que existe nas relações dos corpos entre si, aqui concebidos como tudo aquilo que ocupa um lugar no espaço. Esse “entre” tem a plasticidade que se molda à necessidade e não à obrigação. Não é uma questão de vínculo ou compromisso, mas experiência de devir. Ele se faz na realização de si mesmo. A meditação, por exemplo, está mais para um tempo marcante do que para um marcado.


Apesar dessa dualidade assim percebida, cada um dos tempos está relacionado ao outro de maneira intrínseca, não havendo uma separação. Eles formam composições entre si, ora sobressaindo um, ora outro. Como entender isso na prática diária? O tempo marcado é o estágio das fixações e dos limites que colocamos ou que são colocados diante de nossas realizações humanas. O compromisso com o horário para a realização de uma atividade, por exemplo, é marcado no cronos por uma série de vínculos. Temos a hora de irmos à academia, o horário para o almoço, a jornada diária de trabalho, e assim por diante. São marcas, são fixações. A questão que aqui se coloca é a seguinte: como bem aproveitar o tempo marcado para que ele não seja apenas uma estrutura, uma lista de tarefas ou de modelos prontos que precisamos a qualquer custo realizar para que não sejamos punidos dentro do axioma da produtividade?


Reduzir o tempo marcado a uma estrutura gera um conjunto de sintomas bem comuns na vida cotidiana: o cansaço de desempenhar sempre a mesma função no local de trabalho; o sentimento de ser forçado a participar de uma reunião de família em que não se sente bem e se vai somente para cumprir formalidades; a leitura de um livro porque é preciso fazer uma prova ou que se precisa absorver este ou aquele conhecimento para se alcançar determinada capacitação. Para escapar deste ciclo de aprisionamento, é preciso encontrar o tempo marcante que pode ser vivenciado dentro deste campo estrutural. Cada atividade necessita de uma boa dose de criação, de vida, de potência, de fluidez, para que possa retornar ao homem como algo marcante, significativo, prazeroso, renovador.


O tempo marcante, portanto, é um tempo de prazer. Ele não carrega marcas fixas, mas cria novas marcas que fazem o ser deslizar sobre a superfície dos encontros. Não é mais cronos quem comanda, mas uma combinação entre o númen e o aion, para usarmos alguns conceitos estóicos para o tempo. É no tempo marcante que podemos encontrar a alegria de estar dentro de uma atividade que é vivida com intensidade e que se pode largar a qualquer momento, sem qualquer remorso. Acontece naquele intervalo em que você senta numa varanda e aproveita o ato de estar sentado e faz uso de qualquer sensação que lhe seja a mais conveniente naquele instante: pode ser olhar as formigas que estão caminhando a sua frente, escutar uma música e se deixar levar pelas sensações que ela causa, ler um livro e parar de ler para começar outro e voltar a contemplar as formigas, se levantar, fazer um café, lembrar de um compromisso mas não se angustiar com sua espera. O tempo marcante é o topos da contemplação, da suspensão, da criação de novas zonas de passagem que provoquem mudanças no ser. Mas também, ainda que este prazer de contemplar e de silenciar sejam altamente prazerosos, há também que se entender os limites que estão por vir, que são os tempos marcados da vida cotidiana.


Concluindo, a experiência do ser no tempo pode ser uma combinação mais harmoniosa entre o tempo marcado e o tempo marcante. Podemos, inclusive, ter um tempo marcado para exercitarmos nosso tempo marcante, criando mais espaços de silêncio e de improdutividade, um pouco mais de ócio e de descanso. E criar momentos marcantes naqueles instantes já marcados e aos quais estamos atrelados por força das exterioridades que nos convocam a uma produção dentro do campo social. Que possamos, enfim, dar mais valor ao que é marcante, para aproveitarmos melhor o sabor da vida, mesmo quando este sabor varia do doce ao amargo, do ácido ao salgado, e em todas as variâncias possíveis dessas relações.


Camilo Mota é psicanalista e terapeuta holístico. Site: www.camilomota.com.br. Instagram: @camilomota_psicanalista


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