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  • Camilo Mota

Uma arqueologia de si mesmo



Camilo Mota


“Na verdade, não há percepção que não esteja impregnada de lembranças. Aos dados imediatos e presentes de nossos sentidos misturamos milhares de detalhes de nossa experiência passada.” (Henri Bergson)


Nossa subjetividade é uma construção permanente que se desenvolve no tempo. O instante que se vive é a oportunidade de colocarmos em funcionamento toda nossa potência de vida, nossa força e capacidade de construir realidade. No entanto, tudo está em permanente mutação, e passa. Guardamos memórias daquilo que vivenciamos como uma maneira de nos perpetuarmos, de sermos. A questão é o quanto nos confundimos com o que fomos e o quanto queremos ser na fluidez do tempo que ainda virá (devir).


A memória é uma grande aliada do homem, mas pode ser confundida com um carrasco quando mal interpretada. É o que acontece nos processos neuróticos, quando se tenta a todo custo recuperar aquilo que foi vivido, mesmo que seja algo doloroso. Essa busca pela repetição impede que o indivíduo se atualize, que experimente o modo atual de estar no mundo e se abra a novas experiências e mudanças. Uma das raízes da depressão reside nesse esforço contínuo de se apegar a algo que já passou, seja como forma de punição (lembranças ruins), seja como caminho de fuga para um mundo que teria sido mais feliz (lembranças boas).


A memória não é o carrasco, ela não é punitiva. Ela compõe aquilo que chamamos de ser. No entanto, pela força constitutiva de uma consciência moldada pelas forças sociais (igreja, família, escola, etc.), desenvolvemos um Super Eu, uma instância que a todo momento procura nos corrigir e nos moldar a um modelo de ideal. Se aquilo que está na memória não se adequa ao modelo criado, surge toda forma de sofrimento. Essa comparação constante entre o que somos (Ser) e o que poderíamos ter sido (Ideal) contribui para retirar nossa potência de vida e nos arremessa em fendas que se tornam feridas na consciência. Surge aí o sofrimento psíquico.


Um olhar mais carinhoso para si mesmo revela que tudo aquilo que vivemos é parte componente de nós mesmos. Como somos pessoas inseridas num eixo histórico, influenciamos e somos influenciados por esse tempo. Dessa forma, aquilo que aprendemos aos 7 anos de idade pode ser reformulado aos 15, redefinido aos 20, amadurecido aos 30, revivido aos 40, ressignificado aos 50 e assim por diante. A memória é, na verdade, uma coexistência, um fluxo que nos habita como referência.


O único tempo que realmente podemos experenciar é o que estamos vivendo aqui e agora, e mesmo ele passa num piscar de olhos. Por isso a importância de estarmos presentes, atenciosos ao nosso desejo, à nossa força de vida para que possamos fazer escolhas que nos impulsionem para o futuro que é sempre uma surpresa. É como o espanto de uma criança que descobre a vida a cada momento. Tudo é uma descoberta. Olhar para a frente é estar aberto à surpresa, ao devir, a uma nova construção de realidade. Dessa forma, mesmo quando olharmos para o passado, poderemos contemplar não momentos isolados daquilo que fomos, mas a multiplicidade de vidas que já vivemos em nosso aqui-agora que compõe nossa existência. E dele extrair elementos que contribuam para novos mundos a construir.


Camilo Mota é psicanalista e terapeuta holístico, pós graduado em docência e prática de meditação, mestre de Reiki, escritor e membro da Academia Araruamense de Letras.

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