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  • Camilo Mota

VOCABULÁRIO



Camilo Mota


Antes mesmo de me tornar estudante de Letras, lá no início da década de 1980, as palavras já haviam se alojado dentro de mim como uma força criativa. Meu primeiro trabalho na faculdade foi sobre os aspectos estilísticos nas letras das canções de Chico Buarque. O arranjo dos vocábulos soava como música e reverberava novos sentidos a cada vez que eu me encontrava com seus sons.


Hoje acordei com uma crônica fazendo caminhos dentro de mim, compondo áreas de se fazer no mundo, criando realidade. Tudo porque ouvi a palavra “vocabulário” numa frase dita pelo filósofo Luiz Fuganti. Tomei-lhe emprestado o som que evocou em mim o que me faz me relacionar com as palavras, não apenas como mediação que fazem com o aspecto exterior da vida, mas principalmente pelo que me causam de transformação quando elas me tocam.


Vocabular a vida é descobrir sentidos novos a cada acontecimento. É dar voz às sensações e preenchimentos. A palavra preenche, e também cria vazios, hiatos necessários para se fazer entendida, para além daquilo que evocam. Um vocábulo nômade, cujo sentido vai se configurando na medida em que se relaciona com o dentro e o fora de mim.


Ler é, sobretudo, capturar palavras e tecer uma rede de possíveis e de impossíveis. A poesia, nesse caso, liberta o som ao mesmo tempo em que o prende num campo de sensações e de presença. A palavra dita, escrita, revelada, traduz as estruturas que compõem aquilo de que somos feitos: o corpo que usa o vento para falar. O vocábulo tem essa vocação de ser voz. Quando permitimos esse trajeto do ar respirado, também nos colocamos no lugar de dizer o que somos naquele momento presente, naquela configuração na qual nos inserimos, naquele território em que nos fazemos caminhar em busca dos sentidos que vão criando nossas memórias de futuro.


A palavra é o despertar da criação. Não é em vão que nas escrituras antigas ela esteja associada à gênese do mundo. No princípio, era o verbo, a ação, o movimento. Um vocábulo movente que tudo criou. Pode ser o som primevo de Ñamandu, na cultura guarani, ou o Om que ainda hoje soa intenso quando o emitimos num momento de meditação. E também o grito de nascer, nosso primeiro urro quando o ar invade os pulmões e consagramos a comunhão com o vento. Não é um choro, mas um berro em busca do primeiro sentido e que ao longo da jornada da vida vai se afinando, se harmonizando na composição de uma harmonia de sons e significações.


O grito é uma palavra por fazer. A tradução da dor antes de seu significado se tornar significante.


Já o palavrão ganha os contornos, os limites, os traços que esboçam algo muito maior do que ele. É uma palavra no aumentativo, desprovida da sutileza do cinzel que esculpe a harmonia que pode haver na dor, no sofrimento e na alegria.


Ter intimidade com as palavras é sexualizá-las, consumi-las num coito que percorre as vias de prazer do corpo. Os vocábulos de uma língua resultam desse organismo vivo, que sente, que toca e é por tudo tocado, que se arrepia com um sopro no ouvido e que também arde quando se lhe arranha a pele. Palavras rasgam véus e corpos. Envenenam e curam. Rebaixam e exaltam. São movimentos intensos quando lhes permitimos fluir e atravessar a pele em direção ao fora de nós. E também entram e fazem ninho nas nossas células, invadindo as cadeias genéticas e ali se guardando à espera do momento de renascerem.


As palavras vivem além de nós mesmos. Continuarão sua trajetória no campo das memórias, do tempo que passa. Nós as usamos, muitas vezes, desleixadamente, como uma roupa qualquer que queiramos vestir apenas para tampar nossas vergonhas, esconder o pecado original de ter consumido o fruto do conhecimento no Jardim do Éden. E também as usamos delicadamente quando queremos estar verdadeiramente nus, vivendo sua natureza de sentidos, de sensações, de vitalidade.


O vocabulário é uma roupa colorida, que forma esse desbunde da vida. Cada um compõe o seu próprio nos limites do corpo e o devolve à vida, revelando as linhas que configuram a existência dos seres.


Camilo Mota é psicanalista, terapeuta holístico, escritor, poeta, e mais um tanto de palavras que compõem seus caminhos.

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